Ainda a bolsa encantada

 

Um mendigo compra a liberdade de vários escravos

 

Das Mil Histórias sem fim... é esta a vigésima quinta! Lida esta, restam apenas novecentas e setenta e cinco...

 

Convencido afinal de que a bolsa de nada lhe poderia servir, resolveu Mustakin desfazer-se dela.

Para tanto, sem perda de tempo, tratou de escondê-la sob uma pedra e, antes que alguém o observasse, afastou-se a passos rápidos. Achava-se a caminhar à-toa junto a uma das famosas portas de Basra.

Um escravo cristão, a cantar descuidado, retirava água do fundo de um poço. Depois de beber um pouco de água ficou em silêncio, sem saber que resolução deveria tomar.

- Se tens fome - ousou o escravo, vendo-o indeciso - vem comigo. Não será difícil obter com algum de meus companheiros um pouco de alimento.

- Meu amigo, - retorquiu Mustakin - agradeço a tua bondosa lembrança, mas não sinto disposição para comer.

E de repente, num gesto de louco, segurou o escravo pelo braço e disse-lhe, com voz surda:

- Escuta! Bem vejo que és bom e quero recompensar-te. Debaixo daquela pedra, junto da árvore, está uma bolsa encantada. É provável que não contenha dinheiro, e certamente está vazia! Essa bolsa poderá proporcionar a quem a possuir riquezas incalculáveis. Guardarás um utensílio que em minhas mãos nada poderá valer?

E fugiu, quase a correr pela estrada.

No dia seguinte pela manhã preparava-se Mustakin para deixar a kuba em busca de trabalho, quando o pátio de sua casa foi invadido por um grupo de homens armados.

Eram guardas e auxiliares do cádi Mah Hassan El-Rabhul, governador de Bássora.

- Procuram alguém?

- É a ti mesmo que procuramos, Mustakin - respondeu o chefe dos guardas. - Temos ordens do cádi e vamos levar-te ao palácio.

Menos assustado do que surpreso ficou o infeliz Mustakin. Que nova desgraça seria aquela?

- Estou inocente! - murmurava, cheio de angústia. - Nada fiz para merecer castigo!

O palácio do cádi achava-se repleto de juízes e de altos funcionários do governo.

O governador de Bássora interrogou o preso.

- A acusação que pesa sobre teus ombros, Mustakin - começou o cádi - é grave, é talvez gravíssima. Fui informado de que arrastas uma vida de provações; a cuba em que dormes é um verdadeiro antro. E, no entanto, tiveste a coragem de oferecer ontem, a um escravo cristão, em troca de um pouco d'água, uma bolsa com cem dinares de ouro?

Mustakin, ao ouvir a inesperada declaração do cádi, esbugalhou os olhos assombrado.

- Não se compreende - continuou o governador - que um homem rude, pobre, andrajoso, possa dar a um simples escravo um presente que só os haveres de um califa atingiriam! Quero, portanto, saber qual a origem desse ouro. Se ocultares a verdade, ó Mustakin!, serás severamente castigado.

Ao ouvir tão grave ameaça Mustakin, num depoimento sincero, narrou ao governador tudo que lhe ocorrera desde o aparecimento do misterioso mago em sua casa até o seu encontro com o escravo cristão, e o oferecimento que fez da bolsa vazia.

- É singular essa história! - observou o cádi. A verdade é a seguinte: o escravo cristão indo, por indicação tua, procurar a bolsa encantada, achou-a, não vazia como pensavas, mas repleta de moedas de ouro. Com esse dinheiro comprou a própria liberdade e deu também liberdade a muitos outros escravos cristãos!

E voltando-se para os ricos cortesãos que o rodeavam, perguntou-lhes:

- Quem seria capaz de explicar tão estranho sucesso?

Um Xeque, presente à estranha narrativa, inclinou-se respeitoso diante do cádi, e assim falou:

- Creio poder facilmente explicar-vos o suposto mistério da bolsa encantada, o cádi!

Todos os olhares convergiam sobre o muçulmano que assim falara. Mustakin ficou pálido de espanto ao reconhecer no Xeque o mago que lhe dera a bolsa encantada.

- Cádi! - gritou. Esse homem é o sábio alquimista de que vos falei!

Um silêncio impressionante acompanhou a inesperada declaração de Mustakin.

- Fala! - ordenou o cádi, dirigindo-se ao mago. - Por que misterioso poder veio a bolsa encantada chegar-te às mãos?

- Chamo-me Abi-Osaibi e exerço a profissão de alquimista. Sei preparar remédios, filtros, xaropes e vinhos deliciosos. Muito moço ainda, deixei esta bela cidade e, associando-me a dois aventureiros atenienses, fui tentar a vida no Egito. Consegui, trabalhando sem descansar durante trinta anos, reunir apreciável pecúlio. Ao me sentir velho e fatigado, e possuindo recursos que me permitiriam viver tranqüilamente o resto da vida, resolvi voltar a Basra a fim de rever meus antigos companheiros de mocidade. Onde estariam eles? Muitos, decerto, já teriam visto a face rebrilhante de Azrail, o Anjo da Eterna Separação.

O primeiro conhecido que encontrei foi o mísero Mustakin. Reconheci-o logo, apesar de envelhecido e pobre. Acompanhei-o, sem que ele o percebesse. Entrei na "kubba" sórdida em que ele vive, e bem oculto pude ouvir as palavras de desespero e revolta que proferiu. Ao aparecer de repente, fiz-me passar por um mágico. Ofereci-lhe uma bolsa que trouxera com a intenção de presenteá-lo. Inventei a lenda da bolsa encantada e rejubilei-me ao notar que ele havia acreditado em mim. Aquela aventura teria, certamente, desfecho curioso e iria constituir enredo para uma nova história. Sempre apreciei preparar surpresas e agradáveis imprevistos para os meus amigos. No dia seguinte (que foi ontem) não perdi Mustakin de vista. Segui-o como uma sombra por toda parte. Apreciei todas as tentativas feitas por ele para se assegurar do poder mágico da bolsa. Não errei ao admitir que ele acabaria por se desiludir, pois as prometidas e ambicionadas moedas de ouro (por mais que ele fizesse) não apareciam a brilhar na bolsa que eu lhe dera. Ao vê-lo, afinal, ocultar a bolsa sob uma pedra resolvi, mais uma vez, surpreendê-lo. "Ele virá buscá-la dentro em breve - pensei". Fui, portanto, ao esconderijo e coloquei discretamente dentro da bolsa cinqüenta dinares em ouro. Foi esse o dinheiro que o escravo cristão, momentos depois, encontrou. E assim, ó cádi!, fica explicado o episódio da bolsa mágica e a origem das moedas que tanto alvoroço causaram nesta cidade!

- Por Allah! - exclamou, com entusiasmo. o chefe do tribunal. - O enigma que envolvia o caso da bolsa mágica está completamente elucidado. Os pontos obscurecidos pela dúvida foram esclarecidos pela verdade dos depoimentos. Resultou tudo de uma trama bem-arquitetada, mas que teve um desfecho inesperado para seu autor.

E voltando-se para Mustakin proferiu com ênfase a seguinte sentença:

- Estás livre, ó irmão dos árabes! A tua pessoa não mais interessa à justiça. Podes partir!

- Perdão! - interveio respeitosamente o douto alquimista. - Penso que o senhor cádi não deve conceder a liberdade a Mustakin antes que este modesto carregador da feira receba uma indenização pelos sustos que sofreu ao ser acusado e preso. A indenização será paga por mim, pois em grande parte cabe-me a culpa do sucedido. Duas recompensas proporcionarei a Mustakin: Receberá uma bolsa com duzentos dinares e ouvirá de mim o relato completo da trágica aventura da "mão cortada". Sei que ele se interessa por essa história, pois sua filha e sua esposa foram, sem querer, envolvidas nesse terrível drama.

E o rico alquimista entregou a Mustakin uma bolsa que continha duas centenas de moedas de ouro.

Com lágrimas nos olhos agradeceu Mustakin aquele generoso auxílio e, com voz recortada pela emoção, implorou:

- Quero ouvir, agora, ó ilustre cádi!, o drama da "mão cortada". É bem possível que a narrativa desse episódio venha esclarecer vários e dolorosos mistérios que envolvem oito ou nove famílias de alto prestígio!

- Deve ser muito singular essa história - observou muito sério o digno magistrado. - É bem possível que ela esteja ligada a mais de um inquérito promovido por este tribunal.

E, voltando-se para o alquimista, ordenou:

- Vais contar, ó egípcio, o drama da "mão cortada". Tem a justiça o maior interesse em conhecer esse caso.

O estranho muçulmano inclinou-se respeitoso diante do juiz, e assim começou:

 

("Mil Histórias Sem Fim")

 

continua (A Mão Cortada)

 

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