
Anos ’79 ou ’80. Século passado.
Morava na Quarta Parada uma tia da Jô - minha mulher, que era gêmea da minha sogra: a tia Martha.
Nessa ocasião eu trabalhava no serviço de Compensação Integrada, hoje substituído por sofisticados programas de computador.
Meu trabalho era noturno – das 22 horas às 7 da manhã. Normalmente, como comissionado, trabalhava dez horas que, descontado o intervalo de descanso, caíam para cerca de nove horas.
Naquele dia sentia que iria chegar atrasado. Nem sei por quê, visto que quando entrava no metrô, um pouco antes das dez da noite, ele estava vazio.
Mas sentia que iria atrasar.
Peguei um agasalho leve e saí, pedindo a minha esposa para ligar para o meu Chefe informando que iria chegar atrasado, visto que uma tia minha havia morrido.
E fui. Aquele deslocamento do metrô da Praça da Árvore até São Bento sempre me pareceu muito confortável: ia trabalhar sem qualquer problema maior. Metro vazio, na ida e na volta.
Logo à minha chegada o Encarregado – o Arildo – veio para o meu lado e foi logo informando:
- Herci, ligue para sua casa. Parece que há um problema de saúde com a sua família. É a sua Tia Martha.
Como? – perguntei para mim mesmo – a Tia Martha? - Pois fui eu que pedi que ligassem dando uma desculpa e falando que ela havia morrido.
Tomei do telefone e liguei para minha casa. A Jô atendeu. Perguntei o que havia de novo.
- Oi, bem! – disse ela, - a Tia Martha acaba de falecer.
- Você está brincando, não?! Diga que você está brincando!
- Não, é verdade mesmo.
Eu não estava acreditando. Eu armara uma mentira grosseira para ver se passava despercebido o meu horário de chegada ao serviço e agora a Jô vinha com essa!
Não me conformando, liguei para a casa da Tia Martha para confirmar a notícia.
Era verdade, ela tinha mesmo falecido, após uma crise cardíaca fulminante. Começara a se sentir mal, com grave falta de ar, e foi sentar-se no portão da rua, onde não teve a felicidade de ser atendida de imediato. Daí a alguns minutos, falecia.
Muito mais do que justificar o meu atraso com uma mentira, a realidade pregou-me uma peça ao levar a Tia Martha para uma melhor.
Era uma coincidência. Aliás, uma grande e triste coincidência. Deus levara a Tia Martha justo no momento em que eu usava o seu nome e a sua saúde para justificar o meu atraso!