Ah!... as enchentes

 

As enchentes em São Paulo são bem antigas, e eu até diria: crônicas.

O transbordamento dos nossos rios e córregos – e também das nossas baixadas e túneis, piscinas e piscinões – tem atingido e complicado a vida de muita gente na Capital

Fruto da impermeabilização do solo através de compactação do terreno e aplicação de asfalto, as cheias ocorrem porque a água da chuva não consegue ser absorvida pela terra. E olhe que a luta dos órgãos municipais para resolver o problema tem sido grande – mas em vão.

Não há quem não se lembre de um fato atingindo, violentamente ou não, a própria pessoa ou membros da família, amigos, vizinhos...

Ainda me lembro de um episódio ocorrido com um de nossos filhos que pôs em polvorosa nossa casa.

Nesse tempo só tínhamos morando conosco o Paulo Sérgio: moço, estudante. Sempre foi um rapaz ajuizado, ponderado e sem vícios.

Nas férias saía pelos sertões do nosso Brasil e, quando voltava, trazia algumas marcas das viagens: voltava mais magro (dinheiro curto) e todo cheio de picadas de pernilongos e borrachudos. Mas, independente disso, sempre mereceu a maior confiança nossa, os pais.

Mas, voltemos a falar das cheias ocasionadas pelo excesso de chuvas - e obviamente do nosso filho.

Foi num fim-de-semana de janeiro ou fevereiro de um ano particularmente chuvoso.

O Paulo Sérgio saiu com destino à casa de um de seus amigos, lá para os lados das marginais – se não me engano, da Marginal do Rio Tietê, aquela fúria que, em dias de chuva, enchia – e ainda enche - de medo a maioria dos motoristas da Capital.

Saiu, mas não voltava. Estava ficando tarde e a mãe do Paulo Sérgio se impacientava. "Já são oito horas, e ele não chega". Naquele tempo, chegar depois das oito era motivo de grande apreensão. Hoje, não só meninos, mas menininhas, chegam freqüentemente às duas ou três da manhã! E a inquietação aumentava!...

- E agora? O que foi? O que será?

Toca telefonar para as casas dos amigos. Só que os telefones estavam mudos – você pode imaginar nossos meios de comunicação vinte anos atrás! E nem havia computador doméstico para ajudar um pouquinho.

Você pense bem: uma mãe super-protetora e preocupada, agora já baratinada, sem condições de se comunicar com o filho e sem saber onde ele estava!

Ah!, não houve mas, nem meio mas: por instigação dela – eu digo "dela", porque eu, propriamente, achava e sempre achei que Deus, o nosso Senhor é que deveria ter controle sobre tudo. Afinal, nós, cristãos praticantes, tínhamos ou não tínhamos fé? E ela também era cristã!

Nesta altura, todos os recursos eram admissíveis na "busca". E bem por isso, passamos a fazer contato com quantos endereços de socorro havia: bombeiros, polícia, hospitais, necrotério (por que não?):

- Alô! É do necrotério? Por acaso não deu entrada aí um corpo... assim, assado – ai, meu Deus!... a que ponto chegamos...

E assim foi a noite toda.

Na manhã do dia seguinte – um domingo, eis que, senão quando, entra o Paulo Sérgio todo alegre e lampeiro.

- Mas meu filho - diz a mãe, que não pregara o olho, - o que aconteceu? Pensávamos que você estivesse morto.

- Não mãe, somente que eu estava ilhado pelas águas das enchentes. Não consegui vir pra casa e nem consegui me comunicar com vocês. Está tudo bem.

E, com um beijinho, foi tomar um bom banho - com a maior simplicidade e como se nada tivesse acontecido...

 

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