O afinador de cigarras

 

Conselho simples recebido de um mendigo de Medina

 

Das Mil Histórias Sem Fim... é esta a vigésima! Lida a vigésima restam, apenas, novecentas e oitenta...

 

Poderia parecer, ó Rei! - a um espírito menos atilado, que eu pertencesse ao número infindável dos indolentes e preguiçosos. Tal suspeita traduziria uma dolorosa injustiça. Sou de índole ativa: adoro o trabalho e exerço uma profissão utilíssima. Nasci em Mekala, no sul da Arábia. Existe, nesse país, um grande número de cigarras. Habituado a ouvir o canto desses curiosos habitantes das selvas, aprendi a imitá-los com grande perfeição.

Verifiquei, entretanto, que algumas cigarras cantam mal, são roucas e desafinadas; pude observar ainda que era possível corrigir certos defeitos fazendo com que as cigarras ouvissem melodias perfeitas no tom justo e certo.

Informado da minha habilidade, o governador de Mekala encarregou-me, mediante bom ordenado, dessa delicada tarefa: afinar as cigarras. O meu emprego era dos mais úteis no país, pois em Mekala o canto das cigarras constituía um dos grandes divertimentos do povo.

Há dois anos, porém, as cigarras de Mekala foram dizimadas por uma praga e desapareceram. Perdi o emprego e resolvi emigrar. Parti de Mekala com uma numerosa caravana de peregrinos que iam em busca de Meca, a Cidade Santa.

Chegamos ao Madinat'En Nabi depois de uma longa e fatigante jornada.

Um dia, ao deixar a mesquita do Profeta, andrajoso mendigo estendeu-me a mão implorando um óbolo. Dei-lhe um dinar.

Disse-me o infeliz ancião:

- É esta a terceira vez, estrangeiro! - que recebo de ti um dinar de cobre. Como vejo que és bom e caridoso, vou dar-te um conselho útil, por certo, aos indivíduos que, como tu, praticam o ato sublime da esmola: Não deves dar ao pobre que habitualmente encontras em teu caminho uma esmola certa, igual à que lhe deste na véspera! Há nisto, afirmo, um grande perigo! Procura auxiliá-lo com quantia maior ou menor. Nunca, porém, com quantia idêntica à anterior!

- Singular é o teu conselho, meu amigo - repliquei. - Que perigo poderia advir a uma pessoa do simples fato de dar, todos os dias, a mesma esmola a um mendigo conhecido?

- Por Allah, muçulmano! - retorquiu o mendigo. - Será possível que ainda não tenha chegado ao teu conhecimento a trágica aventura ocorrida com um escriba de Kabul, chamado Ali Durrani que tinha o péssimo costume de dar ao mesmo pobre uma esmola certa e invariável?

- Que caso foi esse?

- Quero que o ouças da pessoa mais autorizada para narrá-lo! - E acrescentou com um gesto misterioso: - Vem comigo!

Conduziu-me por um corredor lateral, até um dos pátios internos da mesquita. Havia ali uma porta, estreita e resistente, na qual o meu singular companheiro bateu com impaciência várias vezes. Abriu-se afinal ligeiramente a porta e ouvi por uma fresta, uma voz rouca e meio agressiva indagar:

- Que trazes tu?

Respondeu meu companheiro:

- Trago três fios de sol e duas aranhas da China!

Surpreendeu-me aquela resposta. As palavras do mendicante envolviam um estranho mistério. E realmente, vi surgir por detrás da tal porta um venerável Xeque, ricamente trajado. As suas barbas longas e já grisalhas caiam-lhe sobre o peito. Ostentava uma espécie de manto todo debruado com fios de ouro e, na cabeça, um turbante à moda dos hindus, rematado, à direita, por um grande laço vermelho-claro.

Ao pôr em mim os olhos, o estranho Xeque exclamou, com profunda emoção.

- Louvado seja Allah, o Sapientíssimo! Até que enfim posso abraçar o meu jovem e amigo, o mais famoso dos músicos, o afinador de cigarras!

E sem que eu pudesse fazer o menor gesto para detê-lo, abraçou-me pelo ombro, com efusão de incontida alegria.

Aquele encontro deixara-me estarrecido. O ancião conhecia-me; não ignorava a antiga profissão que eu exercera em Mekala. Que pretendia o caprichoso Destino ao levar-me ao seu encontro?

- Não me tome por um mágico, nem por um djim - disse o ancião com bom humor. - Conheço-te porque estive durante alguns meses em Mekala e assisti, mais de uma vez, ao coro das cigarras que tu dirigias no parque do rei. Sei que és habilidoso. Precisas de mim?

Nesse momento, o mendigo, que ali me trouxera, acudiu, interessado:

- Xeque dos Xeques! Esse jovem, caridoso e simples, deseja ouvir o relato da aventura ocorrida com o bom escriba Ali Durrani, de Kabul.

- Com grande prazer posso narrá-lo - replicou o Xeque - É uma das histórias mais singulares do velho Afeganistão.

E, com serenidade e graça narrou-me o seguinte:

 

(“Mil Histórias sem Fim”)

 

continua (O troco recusado)

 

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