Abandonados?

 

Ivan Ângelo

 

Minha amiga pisou num buraco na calçada e quebrou o encaixe do fêmur. Não era uma calçada qualquer de menosprezados, mas de uma região nobre, a poucos passos da Paulista, o que, de certa forma, é sinal de democratização do risco de caminhar na cidade. Fez aniversário no domingo passado, recebeu amigos apoiada num andador, depois de ter passado por uma cirurgia dolorosa e um mês de fisioterapia. Neste ano ela não pôde fazer seu almoço sírio-libanês, aprimorado em décadas de afinação. Brincamos com ela: e aí, de quem vamos cobrar nossos quibes, arroz de cordeiro e charutinhos de folha de uva?

Meu vizinho voltava das festas no Paraná, de carro, na chuva, enfiou a roda da frente num buraco da estrada, quebrou o eixo, rodopiou, dançou, bateu de lado numa árvore. Ele, a mulher e a sogra não morreram por sorte. Estranha sorte, que o pegou sem seguro. Quem paga o carro, os dias parados, o hospital?

Levei o carro para revisão, após um primeiro ano de temerária circulação na cidade e tentativas de driblar buracos, crateras, panelões, panelinhas, tartarugas, rachaduras, desníveis, depressões, lombadas, canaletes, bueiros sem tampa, ondulações, pedras e raízes. O mecânico diagnosticou stress de materiais, recomendou trocar a suspensão. E o stress do motorista, como é que fica?

Queixo-me, como vêem, de variados buracos. Nas calçadas, nas estradas, nas ruas. Fomos abandonados. Não ligam para nós, para nossos prejuízos, nossa segurança, nosso bem-estar.

Lembram-se de uma cantiga que dizia "se esta rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para o meu amor passar" – lembram-se?

Além do arroubo amoroso romântico da cantiga e da delicadeza da imagem das pedrinhas de brilhante, percebe-se em segundo plano a aceitação da ordem urbana: se esta rua fosse minha. A rua não é minha, não é nossa, não podemos fazer nada. Ou só é nossa para a sujarmos e degradarmos.

"A rua é pública", argumentavam os meninos do meu tempo disputando espaços com outros meninos para o jogo de bola, a queimada ou o pique. A rua já não é espaço dos meninos, é domínio dos mendigos e dos automóveis. É esse talvez o problema das ruas: elas são públicas, demais. Se fossem um tanto nossas, se fizéssemos um pouco como os meninos de antigamente, se brigássemos por elas, talvez se tornassem públicas para nós, e não contra nós.

O espaço público, hoje, é aquele sem dono. A frase que era dita para reivindicar o direito comum de usar – "a rua é pública" – virou argumento para desprezar. Para degradar. E tomem buracos, cidadãos, nas calçadas, nas ruas, nas estradas, porque a via é pública. Parecem nos dizer: é normal. E nem é por falta de dinheiro, essas coisas são assim mesmo, entende? Se vocês querem estradas sem buracos, privatizem-nas - parecem nos dizer. - Se desejam calçadas aplainadas, cuidem delas vocês mesmos.

Para minha surpresa, nesta semana passei por uma rua que está um tapete. (Uso essa metáfora gasta para poder lembrar que houve um tempo em que colocaram mesmo um tapete em toda a extensão dos Jardins da Rua Augusta, no leito da via, onde os carros passavam. Na verdade era um carpete, colado no asfalto. Eram tempos de "milagre" econômico, fartura de obras e imprensa amordaçada, não havia eleições nem caixa dois para campanhas políticas, só para champanhas). Asfalto novo! Dou uma volta: está acontecendo em outras ruas! Há notícias de que o fenômeno vai atingir as estradas! Explicam: as eleições vêm aí.

A sensação é uma mistura de "até que enfim" e indignação. Por que deixaram chegar a esse ponto? Vai levar anos para arrumar tudo. E o stress dos motoristas, os dias parados, a conta do hospital, o quibe perdido – quem repõe?

 

http://veja.abril.com.br/vejasp/180106/cronica.html

 

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