
Por incrível que possa parecer, na minha carreira de funcionário do Banco do Brasil – fase de Marília - fui fiscal da Carteira Agrícola por alguns anos. Coisa de visitar as propriedades e acompanhar a boa aplicação dos financiamentos pelos agricultores e pecuaristas da região. E acho que fiz tudo muito direitinho, pois os outros dois fiscais - agrônomos ambos - não cansavam de repetir que eu tinha uma boa sensibilidade para fazer as previsões das lavouras – café, milho, amendoim, melancia, feijão, etc., - acertando quase sempre.
Bem, mas não é de mim que pretendo falar.
Na minha rotina diária eu me "punha a campo" muito cedo. Após realizar as fiscalizações solicitadas pelo setor respectivo voltava, tomava um banho para tirar toda a poeira das estradas, almoçava – e muitas vezes às três ou quatro horas da tarde, elaborava os relatórios e rumava para o Banco, onde os entregava.
Certo dia, estava eu bastante atrasado nessa faina de ir ao Banco no centro da cidade, onde nem sempre era fácil estacionar. Entrei no meu jipe apressadamente e fui.
Escutei, porém, na rua, atrás de mim, umas vozinhas de crianças. Olhei para trás. Eram meus dois filhos, de sete e quatro anos que, "comendo poeira", corriam tentando alcançar o carro, gritando: "Pai, pai. Onde é que você vai?"
Eu, sem nem ao menos diminuir a velocidade do veículo, gritei: "Voltem para casa. Não fiquem na rua".
Só que eu não poderia imaginar o desdobramento do episódio: a angústia em que deixei meus filhos!... Os dois ficaram apavorados, achando que tinham sido abandonados pelo pai. Nem se lembraram que, em casa, sua mãe os estava esperando para protegê-los.
O que se passava em suas mentes era: abandonados. Logo pelo pai, em quem confiavam absolutamente.
Resultado: certos de que o pai havia "ido embora", saíram pela cidade, como se quisessem alcançá-lo. Infelizes e jururus desceram e subiram a grande ladeira que era – e ainda é – a Rua Nove de Julho, e o mais velho, o Júnior, reconheceu que estavam perto da casa dos avós localizada no pátio da estação ferroviária da então Companhia Paulista.
O mais novo – o Paulo Sérgio – ainda incapaz de tomar decisões, à medida que lá chegavam, ao encontrar pessoas pelo caminho, falava para o irmão: "Fala que o nosso pai trabalha no Banco do Brasil e que ele nos abandonou".
O Júnior, já entendendo melhor as coisas, mas não menos apreensivo, procurava acalmar o irmão, até que, enfim, não sem muita dificuldade, chegaram à casa dos avós.
Ficaram surpresos com a chegada, pois estavam ansiosos e com os olhos molhadinhos de lágrimas, contudo, ao contrário do que imaginavam, foram recebidos não com apreensão ou repreensões, e sim com vivas e com alegria – pois não eram eles os avós?...
Então, todo o equívoco se desfez. Um telefonema esclareceu tudo: a mãe estava em casa, o pai havia ido ao Banco. E a eles, conduzidos pela mão do avô, cabia retornarem para casa, agora aliviados de todos aqueles temores.