A testemunha

 

Enéas Athanázio

 

Nova audiência estava para começar. Crime de gravidade, desses que revoltam o povo. O juiz, sentado à cabeceira da longa mesa, o promotor e os advogados nos lugares de praxe. Postado diante da máquina, o escrivão está pronto para a ação.

Todos esperam, trocam frases curtas, breves comentários. Concentram-se nas perguntas a fazer, tomam notas, remexem em papéis. A sala silenciosa está fechada, os vidros embaçados pelo frio que faz lá fora. Só a porta que liga ao corredor está aberta.

Mas o tempo passa e a testemunha não aparece. Às vezes se ouve algum barulho de passos e todos fitam a porta. Nada. Cada um volta ao que fazia: o juiz lê os autos, os demais examinam documentos, lançam notas intermináveis.

E nada da testemunha.

Impaciente, o magistrado olha para o relógio da parede e faz um gesto para o escrivão. Ele levanta com preguiça e sai. Anda pelo prédio, vai à portaria, indaga aqui e ali, volta em passos vagarosos. Nem sombra da testemunha.

- Pestiado! – murmura – Está atrasando tudo. Por que não chegam nunca na hora?

Recai o silêncio na sala. A Justiça espera pela sua prova.

Correm os minutos.

Novos passos no corredor, passos pesados de pés calçados de botas. Uma cabeça desgrenhada surge no vão da porta e olha para o grupo. Gestos imperiosos mandam que entre. O caboclão molambento e desajeitado se aproxima e vai deixando um rasto de barro no chão encerado. Traz o chapéu na mão e tem os ombros úmidos da chuva. Senta pesadamente na frente do escrivão.

- Demorou a chegar, não? - indaga o juiz com irritação na voz.

Meio atrapalhado, o homem explica.

- A linha atrasou, tem atolador na estrada. Muita chuva.

Num sinal de que aceitou a justificação, manda ao escrivão que comece. E o auxiliar, com fala impessoal e mecânica, alinha perguntas e bate respostas.

- Seu nome? Idade? Filiação? Estado civil? Residência?

O outro vai respondendo. Sua face revela perplexidade.

Mas o escrivão termina e o juiz começa a inquirição.

- Este é o caso acontecido no lugar chamado Encruzo, no dia 28 de março, quando morreu o cidadão Pedro Pereira Pinto. O senhor assistiu à briga?

- Não senhor – respondeu a testemunha.

Todas as cabeças se voltam para o homem. Os olhos estão cheios de surpresa.

- O senhor não assistiu? – insiste o juiz.

- Não senhor – reafirma o homem.

O promotor se mexe na cadeira e balbucia alguma coisa. “Já compraram o miserável” – imagina. Há um sorriso nos lábios dos advogados.

Transbordando de impaciência, o juiz volta à carga.

- Olha aqui, meu amigo, nós estamos cuidando de coisas sérias, e é melhor falar a verdade, para o seu próprio bem – fez uma pausa. – Que é que o senhor sabe do fato?

- Não sei nada, seu doutor, nada! – diz o homem numa meia exclamação tímida, os braços se abrindo para acentuar a negação.

- O senhor prestou depoimento na delegacia? – torna o magistrado, folheando nervoso o processo.

- Não senhor.

- O senhor então não sabe nada sobre os fatos?

- Não senhor, nem ouvi falar.

Incrédulo, o juiz se recosta na cadeira. Tanta coisa para fazer e ele perdendo tempo com aquele teimoso! Fita com raiva a testemunha recalcitrante. Mas o caboclo demonstra pavor, está pálido, encolhido na cadeira.

Numa nova tentativa, o juiz volta a perguntar, certo de haver encontrado um meio de fazer o homem falar.

- O senhor me explique então o que veio fazer aqui – joga de repente em cima do caboclo.

E este, com visível alívio por lhe fazerem por fim uma pergunta sensata:

- Eu só vim buscar o meu título de eleitor...

 

(“Jornal da Poesia” - www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html)

 

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